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05.11.2013 - 15:22

Criação de camarões de água doce

O camarão Macrobrachium rosenbergii, popularmente conhecido como Camarão-da-malásia ou Gigante-da-malásia é a principal espécie de crustáceo de água doce criada no Brasil. É uma espécie exótica, de origem asiática, que desde a década de 80 tem sido criada em escala comercial em nosso país. Seu volume de produção ocupa posições inferiores ao dos camarões marinhos nos mercados mundiais. No entanto, quando comparado aos marinhos, apresentam várias vantagens tais como: maior resistência a doenças, maturação e larvicultura mais simples, independência da água salgada na fase de crescimento final e sistema de produção compatível com pequenas propriedades rurais. A produção mundial no ano de 2011 foi de aproximadamente 430.000 toneladas, movimentando aproximadamente 2,2 bilhões de dólares. Apenas a titulo de comparação, a produção de tilápia neste mesmo ano movimentou cerca de 3,3 bilhões de dólares.

No Brasil, a atividade se iniciou com bastante entusiasmo e teve seu auge produtivo entre as décadas de 80 e 90 (aproximadamente 700 toneladas anuais). Porém, a partir da metade da década de 90 o setor passou a sofrer declínio, estabilizando a produção durante o início da década de 2000 em 400 toneladas anuais. Após este período, o setor sofreu novo declínio e atualmente encontra-se em fase de recuperação, com produção no ano de 2011 de aproximadamente 265 toneladas. O declínio da produção ocorreu, entre outros fatores, devido à interrupção de assistência governamental para o setor, fechamento de fazendas de cultivo na região nordeste e desestímulo ocasionado por rumores de que a atividade não é viável, que não há mercado para este produto e que não é possível organizar a indústria se baseando em pequenas fazendas de criação. O incentivo governamental para a consolidação de unidades mínimas de produção (pólos regionais que possuam unidade de larvicultura, berçário e engorda) e apoio técnico para profissionalização dos proprietários das pequenas fazendas de engorda, poderia resultar em continuidade e qualidade de produção.

Apesar de muitos empresários rurais estarem desestimulados a iniciar ou continuar a produzir camarões de água doce, há empresas que produzem estes crustáceos há mais de 20 anos. Isto mostra que a atividade pode ser perene. Esta informação é importante, pois no Brasil existem poucas atividades de produção de organismos aquáticos que persistem continuamente por longo período. Em muitos casos, as atividades aquícolas se iniciam com grande furor e recebem muito investimento externo. Quando a manutenção externa é revogada, a atividade não se sustenta. Isto causa um grande transtorno na cadeia produtiva e aos atores ligados a ela. Se a cadeia produtiva do camarão de água doce é interessante, podendo trazer benefícios principalmente a pequenos proprietários rurais, é importante conhecer e fortalecer os elos dessa cadeia.

O Gigante-da-malásia no Espírito Santo

O Gigante-da-malásia é produzido em quase todos os Estados brasileiros, no entanto, o Espírito Santo é reconhecido como maior produtor, detendo cerca de 65% da produção nacional. Atualmente, a demanda por este produto no Estado é muito maior do que a oferta. O produto é vendido para restaurantes, supermercados, bares, buffets e também diretamente às pessoas que levam o produto para suas casas. Os valores de venda desses crustáceos adultos inteiros variam de R$ 25,00 a R$ 50,00 o quilograma, quando comercializados no varejo. A Cooperativa CEAQ (Cooperativa dos Aquicultores do Espírito Santo), localizada em São Domingos do Norte, na região Noroeste capixaba, compra o produto de seus cooperados por um valor um pouco inferior a R$ 25,00 o quilograma, porém, os produtores associados à cooperativa recebem diversas vantagens, tais como assistência técnica, possibilidade de compra de pós-larvas, juvenis e ração em conjunto, barateando os custos. Para que o setor possa atender o volume e a regularidade solicitada pelo mercado, é necessário produzir mais. Para isso, alguns pontos devem ser considerados:

• Suprimento de pós-larvas e juvenis: produtores e especialistas apontam para necessidade de laboratórios de larvicultura próximos às fazendas de engorda. A justificativa é que atualmente a maior parte de suprimento por animais nestas fases de desenvolvimento vem de fora do Estado, elevando os custos por causa do transporte. Em alguns países é comum o transporte por longos trechos e a atividade permanece viável. Porém, no Brasil temos problemas em relação à qualidade das rodovias e estradas (transporte terrestre) e também em relação à disponibilidade e qualidade do transporte aéreo. A inauguração do laboratório de larvicultura da CEAQ, que estava prevista para algum tempo atrás, poderá impulsionar a produção no norte do Estado. Mas é preciso ressaltar que há empresas que produzem estas pós-larvas e juvenis no sul do Estado, e atualmente estas empresas tem trabalhado abaixo da capacidade máxima de produção devido à ausência de encomendas.

• Suprimento de alimento próprio para o camarão: hoje a ração específica para camarões tem chegado aos produtores a aproximadamente R$ 2,80 o kg. Se considerarmos que a conversão alimentar aparente média desses crustáceos tem sido ao redor de 2 kg de ração para produção de 1 kg de camarão, se gasta no mínimo R$ 5,60 por kg, só de ração. O alimento representa cerca de 50% dos custos de produção, que fica ao redor de R$ 11,00 a R$ 14,00 o kg. Por conta destes valores, muitos produtores têm optado por utilizar alimento específico para outras espécies, inclusive aquele indicado para animais terrestres (como ração para frango). Isso é um grande problema, pois estes alimentos não apresentam estabilidade na água e se “esfarelam” ou “dissolvem” rapidamente, não sendo aproveitado diretamente pelos camarões. Assim, os produtores estão na verdade fertilizando o viveiro de cultivo, podendo inclusive provocar problemas na qualidade da água. É necessário investir na formulação de alimento com a melhor qualidade possível dentro de um custo mais baixo. Sabe-se que se o produtor utilizar uma técnica de cultivo adequada é possível produzir com qualidade mesmo com uso de dietas mais simples (mas não aquelas de frango!). O uso de bandejas de alimentação (comedouros) pode auxiliar na redução do uso da dieta. Os custos com a mão de obra para o fornecimento de ração nesta técnica podem ser compensados pela economia no uso de ração.

• Profissionalização do setor e divulgação: é necessário que o setor se profissionalize. Talvez, devido aos elevados valores de venda de camarões, os produtores têm obtido rendimentos satisfatórios mesmo com produtividades abaixo do potencial. No Espírito Santo, é comum a produtividade ao redor de 1 tonelada/ha/ano. Porém, é possível produzir muito mais! Com a utilização de técnicas de manejo adequadas e, inclusive, com utilização de técnicas de intensificação (uso de substratos, despescas seletivas, povoamento com juvenis no lugar de pós-larvas) é possível se obter produtividades acima de 3 toneladas/ha/ano. Desta forma, a cadeia produtiva poderia se fortalecer. Esta profissionalização deve ser acompanhada pela divulgação da atividade e do produto. Muitas pessoas desconhecem o camarão de água doce, não diferindo-os dos crustáceos marinhos.

Em resumo, a carcinicultura de água doce, apesar de não ser tão expressiva em volume de produção como outras atividades aquícolas, pode ser um bom negócio. Unidades mínimas de produção têm funcionado em torno dos maiores laboratórios de larvicultura do Brasil, em São Paulo e no Rio de Janeiro. A atividade tem boa perspectiva de desenvolvimento no Paraná (principalmente com a utilização da técnica de policultivo com tilápias), com a possibilidade de instalação de laboratório de larvicultura na região. O mesmo acontece na região do triangulo mineiro, onde também está sendo instalado um laboratório de larvicultura. A região sul do Espírito Santo apresenta grande potencial de desenvolvimento da carcinicultura, devido às características das propriedades rurais da região, clima, disponibilidade de água, presença de laboratório de larvicultura, entre outros fatores. A região norte do Brasil apresentou um grande avanço na carcinicultura de água doce, por meio da instalação de laboratórios e fazendas de cultivo da espécie nativa Macrobrachium amazonicum, popurlamente conhecido como Camarão-da-amazônia. Este é realmente um grande passo, pois a produção de espécies nativas pode ajudar a evitar diversos problemas ambientais que são causados pela introdução de espécies exóticas na natureza. Por isso, esta forma de produção deve ser incentivada e sempre que possível priorizada.

Artigo publicado na 46ª edição (Out/Nov 2013) da revista ProCampo
por Bruno de Lima Preto
Doutor em Aquicultura - Coordenador do Curso Superior
em Engenharia de Aquicultura - Instituto Federal do
Espírito Santo – Campus de Alegre
blpreto@ifes.edu.br
É proibida a reprodução total ou parcial sem autorização expressa dos editores ou do autor.


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