Revista ProCampo - Uma Leitura Produtiva

 

 
de 2017.   51ª Edição (Agosto/Setembro)  
Publicidade

Anuncie Aqui!

Notícias

 

04.09.2013 - 15:39

Origem e formação dos cavalos marchadores no Brasil

Que levante o dedo quem nunca ouviu dizer que o cavalo marchador surgiu no Brasil em função das características topográficas e ambientais da região onde foi iniciada sua seleção: as montanhas do sul mineiro. Reza a lenda que na topografia montanhosa, nas subidas e descidas dos caminhos irregulares das Gerais, houve a necessidade de o cavalo adaptar seu tipo de locomoção para encontrar mais equilíbrio, oferecendo segurança ao cavaleiro. A estratégia evolucionária escolhida teria sido a supressão dos momentos de suspensão presente no trote, quando o cavalo perde total contato com o solo. Sem momento de suspensão, o animal permaneceria sempre com um ou mais membros apoiados no chão, ganhando firmeza. Segundo esta lógica popular assim surgiu a marcha e os andamentos marchados em suas diferentes configurações.
Do ponto de vista científico, é necessário esclarecer, que a marcha é uma herança genética. Somente dois pares de genes produzem os diferentes tipos de andamentos. Um par determina o trote e a andadura e outro par atua como o gene principal ou como gene modificador. Todos os cavalos carregam este gene modificador, em diferentes graus. Nos cavalos não marchadores, eles são tão fracos que não conseguem interferir nos mecanismos dos pares de genes trote/trote, trote/andadura e andadura/andadura. Em cavalos marchadores, estes genes são fortes o suficiente para interferirem, ou modificarem, os pares de genes trote/andadura. Quando ocorre esta interferência gênica o resultado é espetacular e produz grande variedade de andamentos marchados.
O andamento marchado ocorre quando em qualquer fase da locomoção em média velocidade, o animal tem sempre um ou mais membros em contato com o chão. Por sua vez a marcha ocorre durante o deslocamento, também em média velocidade, quando o cavalo está sempre com três membros em contato com o chão, evidenciando seus momentos de tríplice apoio, seja em marcha picada ou batida.

A marcha

 Com base nestes pressupostos é possível dizer que a marcha é necessariamente um andamento marchado. Porém, nem todo andamento marchado é uma marcha.
No contexto da equideocultura mundial, a brasileira se apresenta como uma das mais ricas, pois engloba 07 raças de equídeos com andamento natural marchado. É o único país no mundo a possuir uma raça pura de jumentos marchadores, conhecida como Pêga. As histórias de formação dessas raças marchadoras estão quase todas ligadas às montanhas de Minas Gerais: Pêga, Campolina, Piquira, Pampa e Mangalarga Marchador. O Mangalarga Paulista descende de um núcleo original do Sul de Minas (Junqueira), mas se consolidou em São Paulo. A exceção fica por conta da Raça Campeira, conhecida como “Marchador das Araucárias”, originária do Planalto Catarinense, sul do país.
O cavalo se encontrava extinto nas Américas quando de sua descoberta, por isso foi reintroduzido pelos colonizadores, em 1494, na segunda viagem de Cristóvão Colombo a Ilha de São Domingos. Ao longo do Séc. XVI várias reintroduções foram realizadas pelos Espanhóis. Oficialmente, a chegada de cavalos no Brasil só foi registrada em 1549, quando Tomé de Souza (primeiro governador-geral) trouxe alguns animais de Cabo Verde para a Bahia. Os Espanhóis utilizaram o cavalo como arma de guerra em suas conquistas sobre os nativos pré-colombianos. Os Portugueses por seu lado usaram o cavalo como força motriz de carga, tração e transporte.
Os primeiros cavalos trazidos de Portugal ao Brasil pertenciam a raças comuns existentes na Península Ibérica. Eram as raças Garrano e Sorraia, consideradas autóctones da Península, pois foram observadas em pinturas rupestres no interior de cavernas peninsulares. Vieram também animais da raça Berbere, originados no norte africano, na região sub-saariana, que chegou a península pelas mãos dos Árabes, durante a invasão dos Mouros, ocorrida à partir do Séc. VII. Na Espanha, os Berberes, pelas mãos dos invasores foram misturados ao Árabe e aos cavalos por lá existentes, constituindo a base para formação do Andaluz, que posteriormente, por seleção direcionada em Portugal, produziu o Lusitano.
Os Holandeses ao invadirem Pernambuco, trouxeram cavalos do tipo germânico, de tração pesada e os belos Frísios de exuberante pelagem preta. Estudiosos sugerem que estes cavalos Holandeses deixaram sua contribuição genética no Brasil ao se misturarem com a tropa de Tomé de Souza na Bahia, sendo os responsáveis por introduzir a pelagem pampa e negra na criação nacional. Essa salada de raças, cruzando aleatoriamente no Brasil por 250 anos, foi a base para constituição do cavalo “Junqueira” no Sul de Minas, por volta de 1750/1780.
Acompanhando os distintos ciclos econômicos do Brasil Colônia o cavalo se espalhou e consolidou-se ao longo do território nacional. A exploração do Pau Brasil foi um rápido ciclo de 30 anos. A exploração canavieira do nordeste dependeu muito do cavalo como força de tração, principalmente quando o entorno dos engenhos foi sendo exaurido e a lenha tinha que ser buscada longe. Porém, foi a pecuária que realmente interiorizou o cavalo. Quando despontou a exploração aurífera em terras mineiras na passagem do Séc. XVII para XVIII, o gado vindo do nordeste chegava às margens do Rio São Francisco, e levando junto o cavalo, vai abastecer os habitantes dos primeiros núcleos urbanos criados no entorno das regiões mineradoras. No final do Séc. XVIII perde importância o ouro de aluvião e surgem as fazendas produtoras no Sul Mineiro, que enriqueceram abastecendo os mineradores. Estes aristocratas rurais vislumbraram entre o rebanho eqüino concentrado em Minas Gerais, os cavalos que apresentavam a marcha como característica de andamento. Era um cavalo cômodo, resistente a longas caminhadas, dócil, rústico por sua seleção natural e se mantinha com alimentação pobre. Perfeito para cumprir a tarefa de transportar o rico fazendeiro à Ouro Preto ou ao Rio de Janeiro, pelos caminhos da Estrada Real. Estavam lançadas as bases para a formação das raças de cavalos marchadores no período do Brasil Império.

Família Junqueira

Na região de Cruzília, no Sul de Minas, originou-se o primeiro núcleo selecionador de cavalos, por mérito e iniciativa de membros da Família Junqueira. Gabriel Francisco Junqueira (1782 – 1868), o Barão de Alfenas, muito influente, Comendador e depois Deputado do Império é reconhecido pela história como precursor do cavalo marchador nacional. Os cavalos “Junqueira”, exímios marchadores, não apresentavam beleza racial zootécnica. Porém, foram a base para formação da raça Mangalarga, através de cruzamentos com as recém-chegadas raças Lusitano e Andaluz, provenientes da Coudelaria Real de Alter do Chão, trazidos ao Brasil por D. João VI, quando de sua fuga às invasões Napoleônicas em 1808.
O Lusitano utilizado na tropa “Junqueira” emprestou o brio e o garbo que gerou a raça Mangalarga no período de 1830/1840. O Andaluz, cruzado com éguas base do rebanho nacional, veio ser responsável pela formação em 1870 na região das Vertentes em MG, da raça Campolina, conhecida como o marchador de grande porte. Parte do rebanho Mangalarga que foi levado para São Paulo, posteriormente foi cruzado com cavalos Árabe, Anglo-Árabe, P.S.I. e American Sadle Horse, gerando uma linha de seleção específica, de marcha trotada, que em 1930/1940, provocou a cisão da raça Mangalarga original em Mangalarga (paulista) e Mangalarga Marchador (mineiro). O Marchador é hoje a raça com maior número de animais registrados no país. O Jumento Pêga, tem sua origem geográfica semelhante ao Campolina, e resulta de mestiçagem das raças italiana e egípcia a partir de 1810, e seu objetivo era a cruza com éguas para produção de muares bons de sela, visando atender as regiões mineradoras bem como a tração de tróleis na capital do império. O Piquira foi criado sem diretrizes uniformes até 1970, quando foi constituída sua Associação de Criadores. Cavalo de pequeno porte, não ultrapassando 1,30 m, tem como origem provável o cruzamento de éguas do rebanho nacional de pequeno porte. O cavalo Campeiro tem sua origem relacionada a animais abandonados no Planalto Catarinense, pela expedição de Álvaro Nuñes “Cabeça de Vaca” em 1541, quando de sua viagem em direção ao Paraguai. Por lá permaneceram em estado selvagem por cerca de 200 anos e somente em 1976 foi formalmente reconhecida como raça nacional, “o marchador das araucárias”. E por último, em 1992, foi constituída em Belo Horizonte, a Associação da raça Pampa, por criadores de diversas raças nacionais, que sentiam a pelagem pampa preterida em suas raças de origem. Assim, criaram um espaço para o privilégio exclusivo desta pelagem, buscando consolidar um cavalo de sela nacional, que contemple qualquer tipo de andamento marchado, divididos em distintas classes.
Nesta rápida visita a cinco séculos de existência do cavalo no Brasil, vislumbra-se a configuração do Agronegócio Cavalo. Complexo econômico de grande importância para o país nos dias atuais, que segundo cálculos conservadores realizados em 2006, movimentava àquela época, valor superior a R$ 7,5 bilhões anuais, gerando cerca de 3,2 milhões de empregos diretos e indiretos ao longo da cadeia produtiva.

Artigo publicado na 45ª edição (Ago/Set 2013) da revista ProCampo
por José Luiz Côrtes Gama
Méd. Veterinário - Esp. em Adm. e Gestão da empresa Rural
Cons. em saneamento e criador de Campolina
jluizcortes@yahoo.com.br
É proibida a reprodução total ou parcial sem autorização expressa dos editores ou do autor.


Edições Anteriores

23.09.2014 - 12 de outubro. Dia do Engenheiro Agrônomo

23.09.2014 - O mosaico do mamoeiro e o mamão de quintal

23.09.2014 - Parasitos: Importantes vilões da produção pecuária

23.09.2014 - Três cultivares de café conilon são protegidas pelo Incaper

23.09.2014 - A certificação fairtrade no café


 voltar  |  topo  |  home

Publicidade

 

Anuncie Aqui!

Anuncie Aqui!

Anuncie Aqui!

Anuncie Aqui!

 

Parceiros

 
  • Cedagro
  • Defagro
  • Midas
  • Cooabriel
  • Incaper
  • Seea
  • Senar
  • CCA-Ufes

Revista ProCampo - A Revista do Agronegócio Capixaba

Endereço: Rua Vinte e Dois de Abril, 09 - B.N.H. - Linhares/ES - 29902-180

Telefone: (27) 3373-3424 // 9984-5808

Email: procampo@revistaprocampo.com.br

"Criando sua empresa na internet"